VISITA DEFINITIVA ( a verdadeira história de Belinha e Princesa!)
Princesa dorme agora, sonhando com uma nova companhia
que chegará em breve. Esta companhia sou Eu! Afinal são 11 anos em que ela monopoliza
o território do quintal e quase da casa toda. Espaços estes conquistados pouco
a pouco, no decorrer dos anos, na casa da família Stocco.
Cheguei num domingo de muito sol, tímida e medrosa. Os
dois seres estranhos que me adotaram parecem gostar de mim, afinal me
escolheram entre centenas, cuidados todos pelo pessoal de uma generosa Ong, a Viralata Viravida. Deram-me
um nome curto: Bele! Gostei! Depois vi que o meu novo nome era Belinha! Encontrei a cadelinha deles, a Princesa, já na
entrada, no portão da Ong. Levaram-na junto para que nos conhecêssemos fora do
território dela, acaso rolasse algum desentendimento ou ciúmes de sua parte.
A mulher magrela passava as tardes junto a nós, no
espaçoso quintal, fazendo brincadeiras para nos aproximar. Jogava um
brinquedinho para a veterana poodle e uma bolinha para mim, primeiro na direção
oposta depois na mesma direção. Corríamos, enquanto a minha nova amiguinha
pegava o bibelô e o segurava nos dentes, eu pegava a bolinha e levava para a
mulher. Na hora de apanhar a bolinha minhas pernas pareciam desengonçadas e eu demorava
a pegá-la. Ai senhor meu Deus!Ela fica correndo atrás daquela garrafa pet
verde, arrasta pra lá e pra cá, joga pra cima, pressiona-a no muro e a levanta
com o focinho. Aí quando aparece a mulher para chutar a garrafa com ela, vixe,
a barulheira aumenta, pelo amor!! Não vejo graça nisto.
Acabo de passar por uma cirurgia. É para não ter mais
filhos, apesar da minha pouca idade. Deixei minhas crias na Ong. Os seis.
Desmamaram-se e o pessoal de lá já tomou providências pra que não pegasse mais
filhos. Judia muito da gente e não tem como criá-los com dignidade.
Agora, no meu novo lar, faço de tudo para conquistar o
carinho do casal e o respeito da poodlelzinha. Nos primeiros dias, minha perna
tremia só em me aproximar dela ou de seus dois cochinhos, coloridos e asseados.
Eu pegava dois grãos de ração e corria me esconder na casinha, a comê-los.
Temia que outros cachorros, invisíveis, devorassem tudo, a me deixar na mão,
quer dizer, na pata. Depois de algumas rosnadas, mostrando aqueles dentes e uma
cara feia, Princesa passou a se aproximar de mim no intuito de me cheirar e me
conhecer melhor. Cedi e também a cheirei.
Ela gira ao próprio rabo, mas não o alcança. Pobre
cachorra! É a centésima vez que tenta, sem êxito, pois não tem rabo, a coitada.
A mulher cuida bem da gente. Já me levou pra receber a
segunda dose da vacina. Foi só uma picadinha...Ui! Sei que é pro meu bem, pelo
menos foi isso o que ela me explicou, antes da pontada! Em casa, ela escova
nossos dentes, pastinha até que saborosa!
Minha companheirinha é bem sentimental, mas acho que eu também sou. Quando
a família se prepara para sair, ela vira as costas pra porta da cozinha, no quintal fica
séria olhando para a parede do muro; pode oferecer petiscos naturais e saborosos (descobri que minha doninha é vegetariana/vegana) ou chamá-la, que não
adianta, ela se melindra; não olha pra trás. Nem se mexe. Se fosse uma humana,
diria que ela é um cocô!

Disputei a casinha de madeira com a poodle. Troquei
várias vezes de casa. Durante o dia eu ficava na nova, comprada para mim, mais
espaçosa e fresca, de material reciclável; à noite preferia a de madeira, mais
aconchegante. E assim, trocamos de casa, eu e ela. Nada mal para um novo membro
da família!
Eu quase não latia, mas em poucos dias minha voz foi
se soltando e já podia acompanhar a Princesa nos latidos. Cheguei até a uivar,
num certo dia. Fiquei maravilhada com a minha capacidade e coragem. Logo, o
homem e a mulher, ela chefe da matilha, me orientaram a não latir o tempo todo,
inutilmente. Tinha que maneirar, afinal, os vizinhos poderiam fazer uma
reclamação da minha recente presença naquela rua. E eu não suportaria voltar a
ser vira-lata, sem lar.
Ensinaram-me a “dar a patinha” como já fazia, com
glamour, a Princesa. Chegou a hora do banho. Não aprovei muito, mas relaxei. As
mãos humanas deslizavam pela minha cútis. Uma sensação muito boa de carinho e
afeto. Afinal, a outra tomava seu banho semanal sem reclamar e ainda tinha que
aceitar a escovação de seus pelos crespos que teimavam em se enrolar,
principalmente nas orelhas. Ui! Que dor! Sorte que os meus pelos são lisos.
Quer saber a cor? Caramelo! Meus olhos amendoados passaram a olhar
compenetradamente nos olhos de mel da humana. Eu os fixava e sentia uma
vibração boa pulsar dentro dela. Ela desviava a visão para, em seguida, fixar
nos meus. Assim ficávamos por minutos, sem falar ou latir. Sensacional.
Já no início, comecei a fazer coco no local mais
adequado: alguns jornais estendidos no canto do quintal, atrás de alguns
grandes e belos vasos de flores perfumadas. Isso, de imediato, agradou à
magrela e ao marido dela, este que, com o tempo foi me conquistando e eu a ele;
porém, não de cara. Permitia que desse umas lambidas rápidas em suas mãos ou
pés. Ou seria porque não dava tempo dele escapar de minha ágil língua?! Sei lá.
Depois acostumei-me a encostar a cabeça na perna dele e esperar um cafuné enquanto ele ficava no computador ou no sofá vendo sei lá o que. Eu subia no colo da mulher. Só sei que tudo caminhava bem – até a Princesa passou
a me convidar para brincar de pega-pega e esconde-esconde, sendo que no
primeiro convite que lhe fiz, ela recusara, agora subia em minhas costas e me
provocava ou convocava a correr; eu a enganava, quebrando a corrida e meia
volta, retornava correndo, às vezes em roda -. Porém, um costume meu, uma mania
eu diria, deixou meus novos amigos de queixos e focinho caídos. Todo e qualquer
acolchoado, na ausência deste, qualquer tapete ou paninho, eu puxava ao fundo
do quintal, deixando a poodle com a casinha no chão duro de madeira.
Fiz isso depois de uma semana nesta nova casa. Juntava
os brinquedinhos aos panos. Mordia os acolchoados revestidos de borracha que
forravam as duas casinhas, até que a magrela, simpática como ela só, docilmente
recolheu-os deixando só dois panos finos. Minha companheirinha, da qual
brigamos uma duas a três vezes, preferiu se omitir nestas ocasiões, porém o homem e a
mulher procuraram várias explicações, nenhuma plausível. “É uma franciscana,
querida, só pode ser!”, dizia o homem, olhando-me torto. Sabia eu que, não
estando nós no inverno, pra que colchão?
* Texto escrito em 2011; hoje, 2014, a Princesa está mais idosa e já não liga para os brinquedos, escuta com dificuldade e toma remédio para o coração e rins, mas corre como uma criança às vezes, e ficou meio ranzinza/ciumenta e mais protetora, sua liderança continua indiscutível e indisputável...Belinha está bem mudada, depois de um ano, ela conseguiu entrar dentro da nossa casa, sem medo e com confiança; come verduras e frutas e legumes igual à Princesa, mas é bem menos enjoada que esta. Salta bem alto, faz gracinhas, respeita a Princesa e se sente protegida por ela quando saímos à rua para um passeio. É extremamente amorosa e doce. Obrigada às duas companheirinhas. Valeu a pena!
Coisinha fofa de post....
ResponderExcluirBeijinhos e beu-beus...