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sábado, 1 de fevereiro de 2014


Breve reflexão do livro  Os melhores contos brasileiros de todos os tempos

Mais uma impressionante antologia de contos, das tantas organizadas por Flávio Moreira da Costa, esta de 2009, ed Nova Fronteira, com 792 páginas, onde o org. vai contextualizando brevemente cada autor e suas obras; claro que, outros contos sensacionais ficaram de fora pois já estão em outras antologias organizadas por Flávio; autores dos séculos XIX, XX e alguns vivos ainda no XXI, alguns mais conhecidos, outros menos ou nunca vistos por mim, mas emocionei-me com dezenas deles, e dentre os 87 contos deste livro divididos em dez seções, peço licença aos leitores para citar e enaltecer os meus 37 preferidos, um convite e sugestão a que outros os leiam pois o encantamento virá sem pedir licença.       
 Da 1ª seção, Conto antes do conto ou A infância da ficção, destaco o conto/oral “E foi inventado o candomblé” (anônimo – Brasil africano); dos “Contos Fundadores ou À sombra do romantismo”, escolhi “A dança dos ossos” de Bernardo Guimarães, “Camila: memórias de uma viagem” de Casimiro de Abreu, e “Encomendas” de França Jr; dos “Contos Sem data ou Machado de Assis”: “Uns braços” (obviamente que eu o escolheria), “Missa do galo”; do capítulo “Contos pioneiros ou o nome do conto-menino” destaco “Redivivo” de Domingos Olympio, “Os brincos de Sara” de Alberto de Oliveira, e “O crime do tapuio", de José Veríssimo;
Dos “Contos transeuntes (1)” selecionei, a meu puro gosto, “O velho Lima” e “Banhos de Mar”, ambos de Arthur Azevedo, “Tílburi de praça” e “50$000 de gratificação”,  ambos de Raul Pompeia, “O madeireiro” de Aluísio Azevedo, “A noiva do golfinho” de Xavier Marques,  e “A caolha” de Julia Lopes de Almeida; dentre os elencados como “Contos regionalistas ou histórias do Brasil profundo”, escolho “Banzo” de Coelho Neto, e “Selvagem” de Vicente de Carvalho (bárbaro esse conto, amei); Contos transeuntes (2),  “O minuete” de Magalhães de Azevedo, “O homem que sabia javanês” de Lima Barreto, “O fim de Arsênio Godard” de João do Rio, “O comprador de fazendas” de Monteiro Lobato,  e “O legado” de Godofredo Rangel (excelente);
Dos “contos modernistas ou a virada de 1922 e 1930” fiquei impressionada, e aos prantos li, me envolvi e senti a experiência do peixe “Bapo” de Francisco Inácio Peixoto (Grupo Verde, anos 20), o mesmo para o já conhecido “Baleia” de Graciliano Ramos, e para “As mãos de meu filho” de Érico Veríssimo, e para “Tangerine-Girl” de Rachel de Queiroz; De “Contos modernos ou Amor e morte na cidade grande”, fui mais tocada por “O telegrama de Ataxerxes” de Aníbal Machado, “Stela me abriu a porta” de Marques Rebelo,  e “Flor, telefone, moça” de Carlos Drummond de Andrade;
E do último capítulo “Contos contemporâneos ou A terceira margem na hora neutra da madrugada”, envolveram-me mais “O ex-mágico da taberna Minhota” de Murilo Rubião, “Viagem a Petrópolis” de Clarice Lispector, “João Urso” de Breno Accioly (maravilhoso), e outro de Lygia Fagundes Teles; “Sorôco, sua mãe, sua filha” e “Desenredo” ambos de Guimarães Rosa, “Trem fantasma” de Moacyr Scliar, e “O arquivo” de Victor Giudice. 
Quanta gente boa escreveu e ainda está escrevendo coisas muito boas, desconhecidas da maioria de nós; personagens e mais personagens criando vida e espalhados por aí, a espera de um leitor apreciador. Quantas vidas, pedaços de vidas, ficções, realidades particulares, transformadas ou não, a literatura é o terreno fértil onde se cria a selva e o jardim. Pena só aparecerem 4 mulheres. É, penso que, de fato, as mulheres tinham pouco tempo para pensar, sentir sentar e escrever, além de pouco espaço e oportunidades para avançarem. Por isso, como analisam alguns, não conseguiam competir com o homem em relação à própria maneira de verem a si mesmas, de falarem de si, coisa que os escritores homens faziam muito bem, talvez exatamente porque elas tinham mais dificuldade para conhecer-se, valorizar-se, se tocar, se enxergar, observar, a não ser pelo olhar e mãos do homem. 
                                        Leitura recomendada, então!
 
 

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


VISITA DEFINITIVA ( a verdadeira história de Belinha e Princesa!)

Princesa dorme agora, sonhando com uma nova companhia que chegará em breve. Esta companhia sou Eu! Afinal são 11 anos em que ela monopoliza o território do quintal e quase da casa toda. Espaços estes conquistados pouco a pouco, no decorrer dos anos, na casa da família Stocco.
Cheguei num domingo de muito sol, tímida e medrosa. Os dois seres estranhos que me adotaram parecem gostar de mim, afinal me escolheram entre centenas, cuidados todos pelo pessoal de uma generosa Ong, a Viralata Viravida. Deram-me um nome curto: Bele! Gostei! Depois vi que o meu novo nome era Belinha!  Encontrei a cadelinha deles, a Princesa, já na entrada, no portão da Ong. Levaram-na junto para que nos conhecêssemos fora do território dela, acaso rolasse algum desentendimento ou ciúmes de sua parte.
 
A mulher magrela passava as tardes junto a nós, no espaçoso quintal, fazendo brincadeiras para nos aproximar. Jogava um brinquedinho para a veterana poodle e uma bolinha para mim, primeiro na direção oposta depois na mesma direção. Corríamos, enquanto a minha nova amiguinha pegava o bibelô e o segurava nos dentes, eu pegava a bolinha e levava para a mulher. Na hora de apanhar a bolinha minhas pernas pareciam desengonçadas e eu demorava a pegá-la. Ai senhor meu Deus!Ela fica correndo atrás daquela garrafa pet verde, arrasta pra lá e pra cá, joga pra cima, pressiona-a no muro e a levanta com o focinho. Aí quando aparece a mulher para chutar a garrafa com ela, vixe, a barulheira aumenta, pelo amor!! Não vejo graça nisto.
Acabo de passar por uma cirurgia. É para não ter mais filhos, apesar da minha pouca idade. Deixei minhas crias na Ong. Os seis. Desmamaram-se e o pessoal de lá já tomou providências pra que não pegasse mais filhos. Judia muito da gente e não tem como criá-los com dignidade.
Agora, no meu novo lar, faço de tudo para conquistar o carinho do casal e o respeito da poodlelzinha. Nos primeiros dias, minha perna tremia só em me aproximar dela ou de seus dois cochinhos, coloridos e asseados. Eu pegava dois grãos de ração e corria me esconder na casinha, a comê-los. Temia que outros cachorros, invisíveis, devorassem tudo, a me deixar na mão, quer dizer, na pata. Depois de algumas rosnadas, mostrando aqueles dentes e uma cara feia, Princesa passou a se aproximar de mim no intuito de me cheirar e me conhecer melhor. Cedi e também a cheirei.
Ela gira ao próprio rabo, mas não o alcança. Pobre cachorra! É a centésima vez que tenta, sem êxito, pois não tem rabo, a coitada.
 


Disputei a casinha de madeira com a poodle. Troquei várias vezes de casa. Durante o dia eu ficava na nova, comprada para mim, mais espaçosa e fresca, de material reciclável; à noite preferia a de madeira, mais aconchegante. E assim, trocamos de casa, eu e ela. Nada mal para um novo membro da família!
Eu quase não latia, mas em poucos dias minha voz foi se soltando e já podia acompanhar a Princesa nos latidos. Cheguei até a uivar, num certo dia. Fiquei maravilhada com a minha capacidade e coragem. Logo, o homem e a mulher, ela chefe da matilha, me orientaram a não latir o tempo todo, inutilmente. Tinha que maneirar, afinal, os vizinhos poderiam fazer uma reclamação da minha recente presença naquela rua. E eu não suportaria voltar a ser vira-lata, sem lar.
Ensinaram-me a “dar a patinha” como já fazia, com glamour, a Princesa. Chegou a hora do banho. Não aprovei muito, mas relaxei. As mãos humanas deslizavam pela minha cútis. Uma sensação muito boa de carinho e afeto. Afinal, a outra tomava seu banho semanal sem reclamar e ainda tinha que aceitar a escovação de seus pelos crespos que teimavam em se enrolar, principalmente nas orelhas. Ui! Que dor! Sorte que os meus pelos são lisos. Quer saber a cor? Caramelo! Meus olhos amendoados passaram a olhar compenetradamente nos olhos de mel da humana. Eu os fixava e sentia uma vibração boa pulsar dentro dela. Ela desviava a visão para, em seguida, fixar nos meus. Assim ficávamos por minutos, sem falar ou latir. Sensacional.

 
 A mulher cuida bem da gente. Já me levou pra receber a segunda dose da vacina. Foi só uma picadinha...Ui! Sei que é pro meu bem, pelo menos foi isso o que ela me explicou, antes da pontada! Em casa, ela escova nossos dentes, pastinha até que saborosa! Minha companheirinha é bem sentimental, mas acho que eu também sou. Quando a família se prepara para sair, ela vira as costas pra porta da cozinha, no quintal fica séria olhando para a parede do muro; pode oferecer petiscos naturais e saborosos (descobri que minha doninha é vegetariana/vegana) ou chamá-la, que não adianta, ela se melindra; não olha pra trás. Nem se mexe. Se fosse uma humana, diria que ela é um cocô!
Já no início, comecei a fazer coco no local mais adequado: alguns jornais estendidos no canto do quintal, atrás de alguns grandes e belos vasos de flores perfumadas. Isso, de imediato, agradou à magrela e ao marido dela, este que, com o tempo foi me conquistando e eu a ele; porém, não de cara. Permitia que desse umas lambidas rápidas em suas mãos ou pés. Ou seria porque não dava tempo dele escapar de minha ágil língua?! Sei lá. Depois acostumei-me a encostar a cabeça na perna dele e esperar um cafuné enquanto ele ficava no computador ou no sofá vendo sei lá o que. Eu subia no colo da mulher. Só sei que tudo caminhava bem – até a Princesa passou a me convidar para brincar de pega-pega e esconde-esconde, sendo que no primeiro convite que lhe fiz, ela recusara, agora subia em minhas costas e me provocava ou convocava a correr; eu a enganava, quebrando a corrida e meia volta, retornava correndo, às vezes em roda -. Porém, um costume meu, uma mania eu diria, deixou meus novos amigos de queixos e focinho caídos. Todo e qualquer acolchoado, na ausência deste, qualquer tapete ou paninho, eu puxava ao fundo do quintal, deixando a poodle com a casinha no chão duro de madeira.


Fiz isso depois de uma semana nesta nova casa. Juntava os brinquedinhos aos panos. Mordia os acolchoados revestidos de borracha que forravam as duas casinhas, até que a magrela, simpática como ela só, docilmente recolheu-os deixando só dois panos finos. Minha companheirinha, da qual brigamos uma duas a três vezes, preferiu se omitir nestas ocasiões, porém o homem e a mulher procuraram várias explicações, nenhuma plausível. “É uma franciscana, querida, só pode ser!”, dizia o homem, olhando-me torto. Sabia eu que, não estando nós no inverno, pra que colchão?
* Texto escrito em 2011; hoje, 2014, a Princesa está mais idosa e já não liga para os brinquedos, escuta com dificuldade e toma remédio para o coração e rins, mas corre como uma criança às vezes, e ficou meio ranzinza/ciumenta e mais protetora, sua liderança continua indiscutível e indisputável...Belinha está bem mudada, depois de um ano, ela conseguiu entrar dentro da nossa casa, sem medo e com confiança; come verduras e frutas e legumes igual à Princesa, mas é bem menos enjoada que esta. Salta bem alto, faz gracinhas, respeita a Princesa e se sente protegida por ela quando saímos à rua para um passeio. É extremamente amorosa e doce. Obrigada às duas companheirinhas. Valeu a pena!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Um poema do livro Atemporal:
 
SIMPLESMENTE AMOR
Amor
Saturado, escorraçado
Não é amor.
Não se define num soneto
Não tem restos, pois inteiro.
Ama-se com os sentidos
Essência completa
Com ou sem devaneios
O amor, o amor, o amor
Tantas vezes pronunciado
Às vezes fugidio e medroso
Dá a cara pra bater
Como um louco cuidadoso
Ou louco apaixonado
Escapa-me a total absorção
Desse sentimento habitado
Sim, o amor tem sempre moradia
Seja um palácio
Ou uma humilde cabana.
Sempre há espaço
À sua inclusão
Perdoa, quem ama
E a quem ama, perdoa
Os equívocos e a desatenção.--------------------------------------------------------
Amigos, compartilho alegremente com vocês, o rico comentário da professora Teresa Bigaran sobre o livro Atemporal. Obrigada, Teresa , e obrigada, leitores!
 
"Seu novo livro de poemas é como um chocolate, você dá uma mordida e não consegue mais parar; eu só parei de lê-lo na última página e fiquei com o gostinho de “quero mais”. Seus poemas atingem ao mesmo tempo tanto as crianças quanto os adultos.  Ao lê-los  sentimo-nos crianças com o olhar do adulto. É uma sensação curiosa...Você tem uma facilidade imensa de lidar com nossos sentimentos e mexer com nossa alma, escreve situações cotidianas com tanta harmonia que é impossível não nos identificarmos com seus pensamentos e com as imagens que eles nos proporcionam.
 Suas poesias nos trazem um misto de sentimentos e emoções, de reflexões sobre o temperamento humano  e sobre as preocupações com a natureza.  Você consegue utilizar as figuras de linguagem de modo singular, personifica os objetos dotando-os de pura sensibilidade (é o caso dos poemas “O porta-retrato”,  “Os dois baldes”).
 
Você escreve com tanta propriedade que nós, leitores, começamos a valorizar até mesmo os simples objetos em nossas vidas.
 
Na poesia “Aquela que pega a enxada” voltei no passado,  vi minha própria mãe sendo retratada através destas simples e verdadeiras palavras. E não é só isso, você enquanto poetisa, não deixa de lado sua didática,  e coloca no papel seu lado professora também,  está sempre unindo o gosto pela escrita com a vontade de ensinar as crianças e até mesmo o adulto, refiro-me ao fado de você estimular a leitura nas pessoas através de seus poemas (“Josielle”, “Meninos dos Jornais”); mostra, também,  às crianças que os bichos devem ser amados, respeitados, enfim, mostra o amor que nutre pelos animais  (“Em minhas mãos os bichos”, “A carne é fraca”, “Que pena”, “Princesa”);  fala-nos sobre  valores (“Os Relógios”).
 
Estimula as pessoas sobre a importante tarefa de  reciclar o lixo -  poema “Lixeiros”). Faz críticas sociais (poema “Desapontamento”, “Iniquidade”, “O crime”, “Teco Teteco”). Faz com que nós reflitamos sobre a fragilidade humana (poema “Antes que a hora chegue”).
 
É impressionante essa sua capacidade de unir a “Luzia poetisa” com a “Luzia professora”. Isso é incrível... Dá uma verdadeira aula de história (poema “Zumbi”) e uma verdadeira aula de religiosidade ao falar sobre o perdão poema “Simplesmente Amor”, que lindo, amei!!!
 
Aliás, amei todos! Através de seus escritos, podemos perceber o quanto você valoriza o meio ambiente, a natureza e o quanto se preocupa com as pessoas e com os animais (ex. poema Fogo).
 
Quanto ao poema “Polyana”, eu também me vi enquanto mãe! Voltei no tempo. Que gostoso passar por isso novamente.
Que belo e romântico o poema “Enamorados”, pois há uma valorização da simplicidade dos gestos, dos atos que devem ser vividos a dois, a fim  de se cultivar os sentimentos verdadeiros; sentimentos essenciais para que as pessoas possam constituir famílias mais felizes; atitudes estas, muitas vezes,  deixadas de lado pela sociedade atual(...)
 Enfim, você, Luzia, é mesmo um TALENTO. No poema “Talento” você deixa claro que ser talentoso não é mérito somente de algumas pessoas, e sim de todos aqueles que buscam, que se dedicam e que são persistentes.
 (...) parabéns, escritora que brinca e brilha com as palavras!"

sábado, 11 de janeiro de 2014


O PORTA-RETRATO
(um poema de Atemporal, para vocês, queridas e queridos leitores)

 
Um porta-retrato choroso

Chorava de solidão

Portava uma foto há anos

Única no salão

A mesma

Um homem de fino bigode.

Um dia chegou

Outro porta-retrato

Àquele sorriu

Viu a foto de uma

Senhora sentada e concluiu:

-O meu dono tá apaixonado

E agora eu tenho alguém

Ao meu lado

domingo, 22 de dezembro de 2013


 
Amigos e amigas, conhecidos ou quase conhecidos, desejo-lhes um natal de paz e um 2014 com fraternidade e faço minhas as intenções desta oração para vocês, que confesso eu, gostaria que esse meu sonho se realizasse, é um dos poucos sonhos que me falta realizar.
                                                Oração da manhã


"Senhor, no silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-Te força, sabedoria, paz. Quero olhar hoje o mundo com olhos cheios de amor; ser paciente, compreensivo, justo, equilibrado; quero ver, além das aparências, Teus filhos, como Tu os vês, e assim só ver o bem em cada um.
Cerra meus ouvidos a toda a calúnia, guarda minha língua de toda a maldade. Que só de concórdia viva o meu espírito. Seja eu tão bom e alegre que todos quantos se achegarem a mim sintam a Tua presença. Reveste-me interiormente de Tua beleza, Senhor, e no decurso deste dia eu Te revele a todos. Amém."


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

 
 
 
CONVITE ESPECIAL A TODOS VOCÊS, POETAS E AMANTES DA LITERATURA
Lançamento do livro ATEMPORAL, de Luzia Stocco
 


Ponto de Cultura Arte Garapa
(Rua D Pedro II, 1313, centro, Piracicaba, atrás do Varejão)

Dia 13/12/13

20h

Noite de autógrafo e show Os Silva cantam Roberto (contemplado pelo Fac) e com declamações de poemas; os livros serão doados, pois também contemplado pelo FAC 2013. Obrigada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

                         Uma partinha de meu livro "VALENTINE, criando amor a terra"

(...)
Ah! Esqueci-me de lhe contar um segredo: Valentine fala com os animais.

Que animal?!? Qualquer animal! Ela não tem preconceitos. Outro dia, ao escurecer, flagrei-a interrogando um tatu. Isso mesmo, um tatu macho. Macho e marrom. Nem pequeno, nem grande, com sua dura carapaça sobre as costas e as patas enrugadas. 

- Por que você não fala comigo, seu Tatu? Não me olhe com essa cara, pois pelo seu jeito e tamanho sei que é macho. Queria tanto saber onde mora...

Coitado! Valentine o enchia de perguntas.

- Que língua você fala? O Tatu nada respondia, só a olhava com aquela cara de tatu.

Ahá!! Agora é a vez dos peixes lambaris. Ela fala com eles numa boa, mas a partir daí começou a se incomodar por não ouvi-los.

- Como faço para me comunicar com vocês? Pergunta Valentine, encostando a mão em um deles sob a cristalina água.

 Sabe, aqui no sítio onde moramos, no bairro Chicó, a água está sempre limpa. Os  peixes nadam correndo de lá prá cá; parece o pega-pega que costumamos brincar às vezes eu e minhas irmãs.

É que eu tenho outra irmã, ela tem três anos e chama-se Vânia. Você vai conhecê-la já, já.

Outra coisa que me esqueci de contar é a minha idade. Lá vai, hein: tenho seis anos e meio. Não vou lhe contar mais detalhes pois quero propor a você uma brincadeira; quero que  imagine como eu sou, com a sua imaginação de criança; e  imagine também como seria a Valentine e a Vânia, se um dia você se encontrar com elas... Tudo bem?

- Amadeus, você escutou algo vindo daquela lambarizinha ali?

         - Eu não! Talvez seja o Nheco que veio roçar o mato.

Nheco é um ajudante de minha família. Ele faz de tudo um pouco, cuida da horta, do pomar e da venda dos produtos na cidade. Meus pais cultivam verduras, legumes e frutas orgânicas.

 - Ô, Valentine, o que é mesmo orgânico? Perguntei enquanto eu saía da água; vi meus dedos dos pés meio amortecidos e enrugados como as patas do tatu, agachei pra ver uns caramujos no barranco.

         - Ai, Dequinha! - Dequinha é meu apelido, chamo-me Amadeus, mas lá na escola rural estou aprendendo a escrever a letra D também, D de Dequinha, além do A de Amadeus, sabe! Isso é legal, né?- E aí Valentine continuou: - Já lhe expliquei, produtos orgânicos são aqueles que ninguém coloca agrotóxico, é tudo puro.

- Nem adubo pode colocar?
...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

             Uma partinha do meu livro O Salto das Estrelas, para vocês saborearem e, se for o caso, pedirem mais!

Mas nem tudo ia bem, alguma coisa nos incomodava, principalmente quando a Lua estava redonda, bem cheia! Aí morava o perigo: algumas estrelas, mais sensíveis, sentiam-se prejudicadas pela forte claridade que a Lua emitia.
 Diziam, “esse brilho machuca nossos olhinhos, ficamos atordoadas e não conseguimos dormir!”.  Já outras, resmungavam, em coro:
- Uf! Nem podemos repousar! É claro demais!! Nossas filhinhas ficam a chorar, manhosinhas que são. Manhosinhas que são... – Repetiam elas.
    - Mas, o que fazer? – Indagava a estrela Maior, chamada Gesânea Re. – Sempre foi assim, desde a época de nossas tataravós.
    - Não! As coisas mudaram por aqui, vovó, nos últimos tempos, sabe?!. – Manifestou outra simpática estrela. – O clarão da amiga Lua está mais forte que antes. E nem me olhem assim, pois eu não sei o porquê!
Houve vários debates, com trocas de ideias entre as jovens, entre as mais velhas com sua experiência e sabedoria e até sugestões entre as estrelinhas.
Então, o seguinte plano foi aprovado:
“Faremos uma escada e chegaremos perto da Lua; aí, juntas, a rodearemos, com muitas, muitas de nós encobrindo sua forte luz.
Enquanto uma turma dorme a outra turma fica trabalhando nesta tarefa. Podemos fazer várias turmas e vamos trocando durante as noites, na semana em que ela estiver cheia”.
       - Plin, plin! (que significa ai, ai, na nossa língua) – Dete Ro! eu não posso ajudar, plin, sinto muito sono por que brinco o dia todo sem parar! – Exclamou, com toda a sinceridade, uma minúscula estrela de nome Audinha.
    - Calma, Audinha! Tem muita estrela grande pra ajudar. Pode relaxar! –Falou a estrela Maior, Gesânea Re, que também adorava rimar.
E lá fomos nós, colocar o plano em prática! A bola, ou seja, a Lua, estava quase se completando.
Esticamos nossos corpos estelares, fomos avançando para cima, encostando-nos umas às outras.
Um espetáculo maravilhoso, juntinhas, as estrelas aos milhares, piscavam e cantavam, em harmonia.
“Que gostosa aventura, aqui no mais alto a saltar, eu e vocês vamos trabalhar láaa laalalá lálá...
...Um passinho aqui, um pezinho lá, gosto de cantar e de dançar, tralalalá! Calcanhar e pontas, juntos outra vez! - Até logo! Olá, muito prazer, muito prazeerrrrr!!” Íamos rodando lentamente, em meia-volta, numa alegre coreografia, virávamos e cumprimentávamos.
                A Lua, calada e tímida, sorriu! Um sorriso largo e redondo contagiou a todas nós, que nunca tínhamos estado tão perto dela.

Até parece festa da terra, quando os humanos acendem suas lâmpadas ou velas.
                           Porém, tudo parecia tão simples e foi se complicando. Não houve a escuridão desejada!
 As estrelas dessa história que estou a lhes contar não pensaram que, unindo suas luzes, mais forte elas ficariam.
Aliás, elas nem sabiam que possuíam tanta luz, não conheciam o próprio brilho, nem eu!!
Assim como você que agora lê esta página possui um maravilhoso brilho, sabia?!!!!
...(continua)

 

terça-feira, 3 de setembro de 2013


 

Breve comentário sobre as andanças do Andaime...



 Acabo de ler o livro Andaime – Um Jeito de Ser, escrito pelo doutor em História Social e Mestre em Teatro, Alexandre Mate, com uma rica abordagem sobre a trajetória dos 25 anos do premiado Grupo Andaime de Teatro Unimep, lançado recentemente.  O livro contém, relatos dos integrantes do Grupo, dos diretores e autores, cartas, comentários sobre os onze espetáculos encenados e algumas cenas, entrevistas aos heróis que, em 1986, fundaram o Grupo - Antonio Chapéu e Carlos Jerônimo. Faço, então, um feedback de minha morada no grupo por mais de 10 anos. Não esqueço os bonecos do Elias, recriados na Itália, com maestria do nosso diretor, Carlos ABC, em 1999. Lá, o público recebeu o programa “Dove il Pesce si Ferma”. Ao término do espetáculo só se ouvia “Bravo! Bravo!” acompanhados por intermináveis palmas, vindas dos corpos em pé, como jamais visto, por cerca de 8 minutos. Aquela sensação ficaria registrada eternamente na memória de cada um. Seguiu-se um debate “pela plástica teatrale, scenne, capiamo tuto!!”, diziam. Depois chuparam cana - algo jamais visto por eles, nesta região fria- que as meninas iam descascando e repartindo em minúsculos pedaços, sobras da cena de “cuspir cana”, das irmãs Dora e Deleise (Luzia e Vania), “humm, é doce!!”.


O grupo pesquisou a emigração trentina do final do século XIX, nas cidades de Cortezano, Meano e Romagnano, com uma média de 600 habitantes. O objetivo? Acumular material para a próxima montagem do grupo, cujo tema ainda estava amadurecendo. Nestes vilarejos não havia escolas nem crianças. Predominavam os idosos e os cães. Deste último, um ou dois em cada casa.  Encontrou-se em ruínas a antiga residência de Bortollo Vitti, o primeiro italiano tirolês a chegar à Piracicaba, em 1977. Em duplas, entrevistamos alguns moradores. Mãe e filho receberam a mim e à Vânia com uma mesa farta de queijos, vinho, pães diversos, água e outros frios. Admiramo-nos com o grau de confiança demonstrada na calorosa cordialidade. Com dificuldade, mas com um enorme desejo de comunicação, conversamos. Tal foi a alegria do senhor ao diagnosticar que determinada frase ele finalmente entendera, após minutos de tentativas, que gritou em êxtase:  - Capito!! Io capito! -Rimos todos.



“Lugar onde o PEIXE para”, estreado em 1996, apresentado durante mais de 12 anos, a intenção do grupo era enfocar a historicidade do ser humano, em seus costumes, suas raízes e memória; deu-se destaque ao universo caipira na reconstrução de sua identidade. Assim surgem personagens como a Nossa Senhora dos Prazeres que fez “banana” pra cidade, a Cobrona, a Moça do Rio, a Inhala Seca. Destacam-se as brincadeiras, que inté minha filha Polyana, na época com nove anos, participou; a Festa do Divino com a catira, a congada e o cururu; o corte de cana, os conflitos da sexualidade na adolescência, as crendices, tendo como fio condutor a lenda do Rio. O jargão tão conhecido pelo Brasil afora “São as deliciosas pamonhas! pamonhas de Pi-racicaba...!”repetido por Denirso (Paulo Farias). Adeus Dora, adeus Francesca, festeiro do divino, beata, cortadora de cana, viajante... Até um dia, Irma (uma das 3 Graças). Parabéns a todos vocês e outros personagens que por mim passaram, levaram um pouco de mim e, um pouco para mim deixaram. Meus amigos e minha mãe Auda, senhora dos figurinos e cenários.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013


Mais um texto da "História do Grupo Andaime de Teatro Unimep contada em brilhante livro"

Andaime – Um Jeito de Ser, escrito pelo doutor em História Social e Mestre em Teatro, Alexandre Mate. Lembro-me, agora, de passagens peculiares de nossa trajetória, do espetáculo Nonoberto Nonemorto: a nona Daniela, hoje na Itália, depois a nona Priscila, que maravilha! o nonoberto querido Chapéu, que enganava e convencia o público, sentado na plateia, já no começo do espetáculo! Da coxia, lágrimas eu derramava em toda apresentação. Carmem, Anselmo, Jerônimo, Fabio, Netinho e Netão! Jorge, Maria, Andrea e Brandão. Nelma, Bruno, Simone, Abegão, Marina H., Gabriela, Paulo, uma família! Como o “Peixe”, muitas viagens, prêmios, crítica aprimorada.

O processo da montagem, estreada em 2000 e apresentada por quatro anos, também foi de muito suor, risos e lágrimas. Os temas, profundamente pesquisados, deram continuidade à linha de estudo do Grupo. Diretor Francisco Medeiro, dramaturgo Luis Alberto de Abreu. Medina cenógrafo, Altafini a trilha sonora, Heise a iluminação, Jânea a dir. musical e Péricles assistente.

Improvisações rolavam em abundância. Valiosas discussões referentes à mitologia, aos rituais de transição. –É exatamente aí, no ápice do cansaço, que vocês irão criar com sabedoria, insistia o diretor. Montem aquilo que lhes toca profundo, aquilo que é mais relevante para a história de cada um. Olhe para o passado e revisite a sua identidade. Esse é o âmago da questão! Tragam encenado o sonho de cada um. Faremos a apresentação da cena e depois a revisitarão para retirar a sujeira, deixá-la mais clara e saborosa. -Apareci com meu sonho datilografado num pedaço de folha: “- o sonho da moça-mulher é poder viver num lugar onde houvesse justiça e igualdade social, meu sonho é conviver melhor comigo mesma, tendo calma, ser compreensiva, ajudar as pessoas de várias maneiras”.

 Paralelamente, os atores debruçaram-se sobre os dois bairros rurais de origem trentina, em Piracicaba, que após a conclusão do texto ficou sendo Santanaolímpia. Entrevistamos moradores mais antigos. Participamos da festa da Cucanha, desde a coleta dos materiais para o cozimento até o final, com direito a banho de lama.  “-Para escapar do desconhecido cria-se o mito, uma narrativa. O mito é onde moram os arquétipos. -Zia Maria dizia “Ter filhos quer dizer 9 meses de doença e tutta la vita de convalescência”.

 Cenas escritas, gravadas iam ao dramaturgo que voltava com um roteiro, resultado da criação coletiva: “... não é só as agruras e heroísmo das massas imigratórias e migratórias que constituem o Brasil, mas ganha contornos simbólicos e torna-se emblema da busca, da ânsia que agita a alma humana em pôr-se em movimento e buscar um lugar diferente de todos já conhecidos e experimentados...onde corre o leite e o mel...lugares míticos que estimulam a imaginação do ser humano, desde os tempos primitivos até os dias de hoje”.

Numa cena o personagem Nonoberto diz:-“Nossos pais saíram do Tirol e construíram Santanolimpia. Se ela acabar, se a gente quiser, fazemos outra. Acho que nossa comunidade não é essa terra, nem o dialeto, nem mesmo o Tirol. É coisa que não sei o que é, mas que está riscado lá dentro, e vai aonde a gente for.” Sou muito grata pela oportunidade de participar desse espetáculo, assim como do “Peixe”. Entrei no grupo Cochichonacoxia da Unimep em 1989 e no Andaime em 96.
(public. A Gazeta)
 

 

“Andaime – Um Jeito de Ser”  - Livro   25 anos de um  grupo de teatro

 Acabo de ler o livro Andaime – Um Jeito de Ser, escrito pelo doutor em História Social e Mestre em Teatro, Alexandre Mate, com uma rica abordagem sobre a trajetória dos 25 anos do premiado Grupo Andaime de Teatro Unimep, lançado recentemente.  O livro contém, relatos dos integrantes do Grupo, dos diretores e autores, cartas, comentários sobre os onze espetáculos encenados e algumas cenas, entrevistas aos heróis que, em 1986, fundaram o Grupo - Antonio Chapéu e Carlos Jerônimo. Faço, então, um feedback de minha morada no grupo por mais de 10 anos. Não esqueço os bonecos do Elias, recriados na Itália, com maestria do nosso diretor, Carlos ABC, em 1999. Lá, o público recebeu o programa “Dove il Pesce si Ferma”. Ao término do espetáculo só se ouvia “Bravo! Bravo!” acompanhados por intermináveis palmas, vindas dos corpos em pé, como jamais visto, por cerca de 8 minutos. Aquela sensação ficaria registrada eternamente na memória de cada um. Seguiu-se um debate “pela plástica teatrale, scenne, capiamo tuto!!”, diziam. Depois chuparam cana - algo jamais visto por eles, nesta região fria- que as meninas iam descascando e repartindo em minúsculos pedaços, sobras da cena de “cuspir cana”, das irmãs Dora e Deleise (Luzia e Vania), “humm, é doce!!”.

O grupo pesquisou a emigração trentina do final do século XIX, nas cidades de Cortezano, Meano e Romagnano, com uma média de 600 habitantes. O objetivo? Acumular material para a próxima montagem do grupo, cujo tema ainda estava amadurecendo. Nestes vilarejos não havia escolas nem crianças. Predominavam os idosos e os cães. Deste último, um ou dois em cada casa.  Encontrou-se em ruínas a antiga residência de Bortollo Vitti, o primeiro italiano tirolês a chegar à Piracicaba, em 1977. Em duplas, entrevistamos alguns moradores. Mãe e filho receberam a mim e à Vânia com uma mesa farta de queijos, vinho, pães diversos, água e outros frios. Admiramo-nos com o grau de confiança demonstrada na calorosa cordialidade. Com dificuldade, mas com um enorme desejo de comunicação, conversamos. Tal foi a alegria do senhor ao diagnosticar que determinada frase ele finalmente entendera, após minutos de tentativas, que gritou em êxtase:  - Capito!! Io capito! -Rimos todos.

“Lugar onde o PEIXE para”, estreado em 1996, apresentado durante mais de 12 anos, a intenção do grupo era enfocar a historicidade do ser humano, em seus costumes, suas raízes e memória; deu-se destaque ao universo caipira na reconstrução de sua identidade. Assim surgem personagens como a Nossa Senhora dos Prazeres que fez “banana” pra cidade, a Cobrona, a Moça do Rio, a Inhala Seca. Destacam-se as brincadeiras, que inté minha filha Polyana, na época com nove anos, participou; a Festa do Divino com a catira, a congada e o cururu; o corte de cana, os conflitos da sexualidade na adolescência, as crendices, tendo como fio condutor a lenda do Rio. O jargão tão conhecido pelo Brasil afora “São as deliciosas pamonhas! pamonhas de Pi-racicaba...!”repetido por Denirso (Paulo Farias). Adeus Dora, adeus Francesca, festeiro do divino, beata, cortadora de cana, viajante... Até um dia, Irma (uma das 3 Graças). Parabéns a todos vocês e outros personagens que por mim passaram, levaram um pouco de mim e, um pouco para mim deixaram. Meus amigos e minha mãe Auda, senhora dos figurinos e cenários.